CAPÍTULO 11
A multideterminação do humano:
uma visão em Psicologia
“Eu sou eu e a minha circunstância”
Ortega Y Gasset
OS MITOS SOBRE O HOMEM
“Pau que nasce torto, não tem jeito, morre torto!”
Eis aqui um provérbio popular que expressa por inteiro o que
pretendemos questionar e discutir neste capítulo.
E não é só na crença popular que está presente a idéia de que o
ser humano nasce já dotado das qualidades que, no decorrer de sua
vida, irão ou não se manifestar. Na Filosofia encontraremos, em diversas
correntes, idéias semelhantes a esta.
Bleger, em seu livro Psicologia da conduta, sistematiza pelo menos
três mitos filosóficos, que influenciaram as ciências humanas em geral
e a Psicologia em particular, e que apresentam a idéia de que o homem
nasce pronto.
• O mito do homem natural: concebe o homem como possuidor de uma
essência original que o caracteriza como bom, possuindo qualidades
que, por influência da organização social, se manifestariam, perderiam
ou modificariam, isto é, o homem nasce bom, mas a sociedade o
corrompe.
• O mito do homem isolado: supõe o homem como, originária e
primitivamente, um ser isolado, não-social, que desenvolve
gradualmente a necessidade de relacionar-se com os outros indivíduos.
Alguns teóricos consideram necessário, para esse relacionamento, um
instinto especial, que Le Bon, um dos pioneiros da Psicologia social,
denominou instinto gregário. Sem esse instinto, o homem não
conseguiria relacionar-se com seus semelhantes, e seria impossível a
formação da sociedade.
• O mito do homem abstrato: nessa concepção, o homem surge como
um ser cujas características independem das situações de vida. O ser
está isolado das situações históricas e presentes em [pg. 167] que
transcorre sua vida. O homem é estudado como o “homem em geral”, e
seus atributos ou propriedades passam a ser apresentados como
universais, independentes do momento histórico e tipo de sociedade
em que se insere e das relações que vive. Neste caso, uma pessoa que
viveu na época do Brasil Colônia não diferiria de uma pessoa do Brasil
atual, como se o desenvolvimento econômico e tecnológico não
interferisse na formação do indivíduo.
Sob o nosso ponto de vista, o homem não pode ser concebido
como ser natural, porque ele é um produto histórico, nem pode ser
estudado como ser isolado, porque ele se torna humano em função de
ser social, nem ser concebido como ser abstrato, porque o homem é o
conjunto de suas relações sociais. E é disto que iremos tratar neste
capítulo.
QUEM É O HOMEM?
Essa pergunta tem instigado poetas, filósofos, cientistas e homens
de todos os tempos, e mais uma vez nos deparamos com ela.
O poeta Carlos Drummond de Andrade, também preocupado com
o homem, pergunta em sua poesia:
Mas que coisa é homem,
que há sob o nome:
uma geografia?
um ser metafísico?
uma fábula sem
signo que a desmonte?
Como pode o homem
sentir-se a si mesmo,
quando o mundo some?
Como vai o homem
junto de outro homem,
sem perder o nome?
E não perde o nome
e o sal que ele come
nada lhe acrescenta
nem lhe subtrai
da doação do pai?
Como se faz um homem?
Apenas deitar,
copular, à espera?
de que do abdômen
brote a flor do homem?
Como se fazer
a si mesmo, antes
de fazer o homem?
Fabricar o pai
e o pai e outro pai
e um pai mais remoto
que o primeiro homem?
(...)1 [pg. 168]
Então, quem é o homem?
Várias respostas podem ser dadas a esta pergunta, expressando
diferentes pontos de vista ou diferentes visões de homem.
Nós escolhemos uma delas para apresentar aqui, e que é, na
verdade, a concepção de homem que fundamenta este livro:
O HOMEM É UM SER SÓCIO-HISTÓRICO
Mas, para que essa concepção fique mais clara, é necessário
desenvolvê-la melhor.
A primeira coisa que podemos dizer sobre o homem é que ele
pertence a uma espécie animal — Homo sapiens. Todos nós
dependemos dos genes que recebemos de nossos ancestrais para
formar nosso corpo, obedecendo às características de nossa espécie.
1 Carlos Drummond de Andrade. Especulações em torno da palavra homem. In: Obra completa. Rio de
Janeiro, José Aguilar, 1967. v. único. p. 302.
A evolução do
homem
No entanto, a Biologia já nos ensinou que os genes se manifestam
sob determinadas condições ambientais (físicas e sociais). Experiências
demonstram que peixes com determinado gene para cor de olho, quando
nascidos em um meio experimental distinto de seu meio natural,
apresentam olhos de outra cor. É por isso que se diz que todos os traços,
físicos ou mentais, normais ou não, são ao mesmo tempo genéticos e
ambientais.
Temos, portanto, um conjunto de traços herdados que, em contato
com um ambiente determinado, têm como resultado um ser específico,
individual e particular.
O que a natureza (o biológico) dá ao homem quando ele nasce
não basta, porém, para garantir sua vida em sociedade. [pg. 169] Ele
precisa adquirir várias aptidões, aprender
as formas de satisfazer as necessidades,
apropriar-se, enfim, do que a sociedade
humana criou no decurso de seu
desenvolvimento histórico.
Se você pensar nas coisas que sabe
fazer — escovar os dentes, comer com
talheres, beber água no copo, jogar futebol
e video game, escrever, ler este texto,
discuti-lo —, compreenderá que nossas
aptidões, nosso saber-fazer, não são
transmitidos por hereditariedade biológica,
mas adquiridos no decorrer da vida, por
um processo de apropriação da cultura
criado pelas gerações precedentes.
O HOMEM APRENDE A SER HOMEM
Não queremos dizer com isso que o homem esteja subtraído
do campo de ação das leis biológicas, mas que as modificações
biológicas hereditárias não determinam o desenvolvimento sócio-
A criança aprende e reproduz o curso
do desenvolvimento histórico da
humanidade.
histórico do homem e da humanidade: dão-lhe sustentação. As
condições biológicas permitem ao homem apropriar-se da cultura e
formar as capacidades e funções psíquicas.
A única aptidão inata no homem é a aptidão para a formação de
outras aptidões.
Essas aptidões se formarão a partir do contato com o mundo dos
objetos e com fenômenos da realidade objetiva, resultado da experiência
sócio-histórica da humanidade. E o mundo da ciência, da arte, dos
instrumentos, da tecnologia, dos conceitos e idéias. Para se apropriar
desse mundo, o homem desenvolve atividades que reproduzem os
traços essenciais da atividade acumulada e cristalizada nesses produtos
da cultura. São exemplos esclarecedores a aprendizagem do manuseio
de instrumentos e a da linguagem.
Os instrumentos humanos levam em si os traços característicos da
criação humana. Estão neles fixadas as operações de trabalho [pg. 170]
historicamente elaboradas. Pense numa enxada ou em um lápis. A mão
humana, que produziu esses objetos, subordina-se a eles, reorganizando
os movimentos naturais do homem e formando capacidades motoras
novas, capacidades que ficaram incorporadas nesses instrumentos.
Também o domínio da linguagem não é outra coisa senão o
processo de apropriação das significações e das operações fonéticas
fixadas na língua.
Assim, a assimilação pelo homem de sua cultura é um processo de
reprodução no indivíduo das propriedades e aptidões historicamente
formadas pela espécie humana. A criança, colocada diante do mundo
dos objetos humanos, deve agir adequadamente nesse mundo para se
apropriar da cultura, isto é, deve aprender a utilizar os objetos. Torna-se,
então, condição fundamental para que isso ocorra, que as relações do
indivíduo com o mundo dos objetos sejam mediadas pelas relações com
os outros indivíduos. A criança é introduzida no mundo da cultura por
outros indivíduos, que a guiam nesse mundo.
H. Piéron resume esse pensamento em uma frase bastante
interessante:
“A criança, no momento do nascimento, não passa de um candidato à
humanidade, mas não a pode alcançar no isolamento: deve aprender a ser um
homem na relação com os outros homens”2.
Duas imagens são interessantes aqui: ainda que coloquemos os
objetos da cultura humana na gaiola de um animal, isso não torna
possível a manifestação das propriedades específicas que estes objetos
têm para o homem. O animal não se apropria desses objetos e das
aptidões cristalizadas neles. Pode manuseá-los, mas eles não passarão
de elementos do meio natural. O homem, ao contrário, aprenderá com os
outros indivíduos a utilizá-los, extraindo do objeto aptidões motoras.
Outra imagem é a de uma catástrofe no planeta que eliminasse
todos os adultos e preservasse as crianças pequenas. A história seria
interrompida, como afirma Leontiev.
“Os tesouros da cultura continuariam a existir fisicamente, mas não existiria
ninguém capaz de revelar às novas gerações o seu uso. As máquinas deixariam
de funcionar, os livros ficariam sem leitores, as obras de arte perderiam a sua
função estética. A história da humanidade teria de recomeçar”3. [pg. 171]
Se retomarmos agora a formação biológica de cada indivíduo, com
cargas genéticas diferentes, poderemos postular aqui que as disposições
inatas que individualizam cada homem, deixando marcas no seu
desenvolvimento, não interferem no conteúdo ou na qualidade das
possibilidades de desenvolvimento, mas apenas em alguns traços
particulares da sua atividade. Assim, a partir do aprendizado ou da
apropriação de uma língua tonal, os indivíduos, independentemente de
suas cargas hereditárias, formarão o ouvido tonal (capaz de discernir a
altura de um complexo sonoro e distinguir as relações tonais). No
entanto, nessa população, alguém poderá ter herdado de seus pais
2 Apud A. Leontiev. O desenvolvimento do psiquismo. p. 238.
3 A. Leontiev. Op. cit. p. 272.
ouvido absoluto, o que lhe dará uma acuidade auditiva diferenciada,
possibilitando-lhe tornar-se um músico brilhante.
Essas diferenças entre os indivíduos existem, mas não são elas
que justificam as grandes diferenças que temos em nossa sociedade.
Pois, repetindo, essas diferenças biológicas geram apenas alguns traços
particulares na atividade dos indivíduos. Ou seja, todos aprendem a
fazer, só que colorem seu fazer com alguns traços particulares,
singulares, individuais. As nossas diferenças sociais são muito maiores
— temos crianças que sabem fazer e outras que não aprenderam e,
portanto, não desenvolveram certas aptidões. Essas diferenças estão
fundadas no acesso à cultura, que em nossa sociedade se dá de forma
desigual. Existem crianças que não têm brinquedos sofisticados, e até
aquelas que não têm os mais comuns; crianças que não manuseiam
talheres ou lápis; crianças que não andam de bicicleta, ou que nunca
viajaram. Temos até muitos adultos que não aprenderam a ler e escrever
e, portanto, nunca leram um livro; que nunca saíram do local onde
nasceram e não sabem que o homem já vai à Lua; nunca viram um
avião, nem imaginam o que seja um computador. Esses são alguns
exemplos. Não precisamos nos alongar, porque você, com certeza, já
percebeu essas diferenças. Ora, se desenvolvemos nossa humanidade a
partir da apropriação das realizações do progresso histórico, é claro que,
numa sociedade onde essa igualdade não ocorre, fica excluída a
possibilidade de igualdade entre os indivíduos.
“É por isso que a questão das perspectivas de desenvolvimento psíquico do
homem e da humanidade põe antes de mais nada o problema de uma
organização equitativa e sensata da vida da sociedade humana — de uma
organização que dê a cada um a possibilidade prática de se apropriar das
realizações do progresso histórico e participar enquanto criador no crescimento
destas realizações4“,
podendo cada um desenvolver seu potencial para que se
expressem suas particularidades. [pg. 172]
4 A. Leontiev. Op. cit. p. 257.
O QUE CARACTERIZA O HUMANO?
Quando nos colocamos essa questão, estamos querendo explicitar
as propriedades ou características que fazem do animal homem um ser
humano. O que nos distingue dos outros seres? Quais são nossas
particularidades enquanto seres humanos?
O HOMEM TRABALHA E UTILIZA INSTRUMENTOS
Inicialmente, salientamos como característica humana o trabalho e
o uso de instrumentos. Alguns animais, talvez a maioria deles, executam
atividades que se assemelham ao trabalho humano: a aranha que tece a
teia, a abelha que fabrica a colméia e as formigas que incessantemente
carregam folhas e restos de animais para sua “cidadela”. E poderíamos
dizer que as operações desses animais se assemelham às de
trabalhadores humanos — tecelões, arquitetos e operários. Mas o mais
inábil trabalhador humano difere do mais “habilidoso” animal, pois, antes
de iniciar seu trabalho, já o planejou em sua cabeça. No término do
processo de trabalho, o homem obtém como resultado algo que já existia
em sua mente. O trabalho humano está subordinado à vontade e ao
pensamento conceitual.
O uso de instrumentos também não é exatamente uma novidade
As relações sociais e as
atividades do homem no
mundo são as
responsáveis pela sua
configuração como ser.
no mundo animal. O castor, o
macaco, algumas espécies de
aves também fazem uso de
instrumentos. Mas esse uso
está marcado pelo fato de o
animal não ter consciência
disso. Se um macaco [pg. 173]
vê à sua frente um pedaço de
pau, poderá com ele tentar
apanhar uma fruta em local
pouco acessível, mas, se não
há nenhum instrumento à vista,
ele fica sem a fruta. O macaco não tem condições de raciocinar: “Poxa, e
aquele pauzinho que eu usei ontem, onde será que eu deixei?”.
O macaco tem a imagem do instrumento, mas não tem o conceito
de instrumento. Ele aprende a utilizá-lo, mas não pode dizer ou pensar
para que serve.
Uma breve história de um experimento poderá ajudar a
entendermos esta afirmação de que o macaco aprende mas não
conceitua.
Numa oportunidade, exatamente para testar este ponto, alguns psicólogos
treinaram um macaco de laboratório para apagar fogo — um macaco bombeiro.
Primeiro, sabendo que o macaco gostava muito de maçã, eles o treinaram para
apanhar uma maçã em uma plataforma um pouco distante de sua gaiola. Sempre
que tocava um sinal, o macaco corria em direção à maçã. O próximo passo,
sabendo do verdadeiro pavor que os macacos têm do fogo, foi colocar em volta
da maçã um pequeno círculo de fogo. Naturalmente, o macaco desistiu da maçã.
Em seguida, por meio de condicionamento, ensinaram o pequeno animal a usar
um balde com água para apagar o fogo. Depois de bem treinado, veio o passo
final. Colocaram a plataforma com a maçã e o círculo de fogo no meio de um
tanque com água com altura suficiente para o macaco atravessá-lo. Resultado: o
macaco foi até o lugar onde estava a maçã, viu o fogo, saiu do tanque e foi
Apesar de manipular a máquina fotográfica à
semelhança do homem, o macaco não tem consciência
de sua utilidade.
apanhar o balde com água para apagá-lo.
Veja só, o macaco aprendeu a usar o conteúdo do balde para
apagar o fogo, mas não foi capaz de conceitualizá-lo, já que não
percebeu que o conteúdo do balde era o mesmo do tanque. Entretanto,
se estivesse com sede, ele beberia indistintamente tanto o conteúdo do
tanque como o do balde.
Então, para que o instrumento seja considerado um instrumento de
trabalho, é necessário que a sua representação na mente [pg. 174] seja
conceitualizada e, desta maneira, transforme-se em um primeiro dado de
consciência.
O HOMEM CRIA E UTILIZA A LINGUAGEM
Para o psicólogo Alexis Leontiev, a linguagem é o elemento
concreto que permite ao homem ter consciência das coisas. Mas, para
chegar até a linguagem, houve alguns antecedentes. Se raciocinarmos
em termos evolutivos (teoria evolucionista de Darwin), o homem teve sua
origem a partir de um antropóide.
As condições para que o homem chegasse até a linguagem foram
as seguintes:
1. esse antropóide aprendeu a andar sem usar as mãos, ficou ereto e
com as mãos livres;
2. esse antropóide vivia em grupo (como ocorreu com muitas espécies
de macacos);
3. esse grupo de antropóides tinha dedo opositor, o que permitia a
utilização de instrumentos (por exemplo, um pedaço de pau para
apanhar alimentos);
4. o sistema nervoso dispunha de suporte mínimo para o
desenvolvimento da linguagem.
No decorrer da evolução do homem atual (são cerca de 5 milhões
de anos desde o aparecimento do australopithecus aferensis, primeiro
antropóide ou macaco com características humanóides, até o homo
neanderthalensi e o homo sapiens primitivos — nossos antepassados
diretos, que provavelmente surgiram há 30 mil anos), aprendemos a
transformar o instrumento em instrumento de trabalho (instrumento com
objetivo determinado), a registrá-lo simbolicamente em nosso sistema
nervoso central (aparecimento da consciência) e a denominá-lo
(aparecimento da linguagem).
Este desenvolvimento foi, evidentemente, muito lento (5 milhões de
anos representam muito, mas muito tempo mesmo...). Cada avanço
representou uma enorme conquista para o desenvolvimento da
humanidade. A descoberta de que a vocalização (transformação de um
grunhido em som com significado) poderia ser usada na comunicação
equivale, nos tempos atuais, à descoberta dos chips eletrônicos.
O fato é que o instrumento de trabalho induz o aparecimento da
consciência (isso ocorre de forma concomitante) e cria as [pg. 175]
condições para o surgimento da linguagem — três condições que
impulsionam o desenvolvimento humano.
O HOMEM COMPREENDE O MUNDO AO SEU REDOR
Todos nós já observamos o comportamento de uma pequena
aranha na sua teia. A teia é tecida para garantir sua alimentação e,
quando um desavisado inseto bate nessa teia, fica preso a ela. Pronto, o
almoço está garantido! O inseto, que também luta pela sobrevivência,
debate-se tentando escapar da armadilha. Esta vibração é uma espécie
de aviso para a aranha, que dispara em direção a ela e envolve o inseto,
aplicando-lhe seu veneno. Se nós pegarmos um diapasão e vibrarmos
esse instrumento junto à teia da aranha, estaremos simulando uma
situação parecida com a vibração causada pelo inseto. O resultado é que
a aranha irá ao encontro do ponto de vibração e envolverá com seu fio
aquele ponto vibrante sem nenhum inseto. Esta simples experiência
demonstra que o comportamento da aranha é predeterminado,
geneticamente marcado.
O homem, diferentemente, compreende o que ocorre na realidade
ambiente. Quando percebemos algo, refletimos esse real na forma de
imagem em nosso pensamento. Muitos animais apresentam essa
possibilidade. Mas nós, homens, compreendemos — relacionando e
conceituando — o que está a nossa volta.
A consciência reflete o mundo objetivo. É a construção, no nível
subjetivo, da realidade objetiva. Sua formação se deve ao trabalho e às
relações sociais surgidas entre os homens no decorrer da produção dos
meios necessários para a vida.
Este fator fundamental, a consciência, separa o homem dos
outros animais e é o que lhe dá condições de avaliar o mundo que o
cerca e a si mesmo. Só o homem é capaz de fazer uma poesia
perguntando uma coisa muito difícil de responder: Quem sou eu? De
onde vim?
Sem dúvida, a compreensão ou o saber que o homem desenvolve
sobre a realidade ambiente não se encontra todo como saber consciente
— conhecimento. O homem sabe seu mundo de várias formas: através
das emoções e sentimentos e através do inconsciente. Portanto, essas
formas também se constituem como características do humano.
A consciência (incluída a consciência de si), sentimentos e
emoções, o inconsciente podem ser reunidos no que chamamos, em
Psicologia, subjetividade ou mundo interno. [pg. 176]
AFINAL, QUEM É O HOMEM?
Agora temos condições de retomar o provérbio “pau que nasce
torto, não tem jeito, morre torto”, que introduziu nosso capítulo, e
questioná-lo. Esse provérbio abandona por completo a noção de ser
histórico, social e concreto, quando liga definitivamente o ser que nasce
ao ser que morre, ou seja, supõe que não há transformação desse
homem. As experiências concretas de vida em determinada época,
cultura, classe social, grupo étnico, grupo religioso etc. são, na
concepção do provérbio, absolutamente inofensivas, inúteis, sem
influência alguma sobre o ser que nasce. O ser que morre não é pensado
como resultante de toda uma vida real, de todo um conjunto de
condições materiais experienciadas, que determinam o desenvolvimento
do ser que nasceu.
As propriedades que fazem do homem um ser particular, que
fazem deste animal um ser humano, são um suporte biológico
específico, o trabalho e os instrumentos, a linguagem, as relações
sociais e uma subjetividade caracterizada pela consciência e
identidade, pelos sentimentos e emoções e pelo inconsciente. Com isso,
queremos dizer que o humano é determinado por todos esses
elementos. Ele é multideterminado.
Questões
1. Explique os mitos do homem natural, do homem isolado e do homem
abstrato.
2. Explique a concepção apresentada do homem como ser sóciohistórico.
3. Por que H. Piéron diz que a criança ao nascer não passa de um
candidato à humanidade?
4. O que caracteriza o humano? Fale um pouco de cada aspecto.
Atividades em grupo
1. Discuta com seu grupo respondendo à pergunta: Quem é o homem?
Utilizem a forma de expressão que desejarem. Apresentem para a
classe o resultado da discussão.
2. Discutam a afirmação: O homem aprende a ser homem.
3. “Pau que nasce torto, não tem jeito, morre torto.” Discutam essa frase
a partir da concepção da multideterminação do homem, utilizando o
filme Trocando as bolas como base para um debate entre grupos
que defendam posições contrárias. [pg. 177]
Bibliografia indicada
Sobre este tema, não há uma bibliografia introdutória para o aluno.
Como leitura que aprofunda aspectos abordados neste texto,
indicamos: A ideologia alemã, de K. Marx e F. Engels (Lisboa,
Presença; São Paulo, Martins Fontes, 1980). Deste livro, destacamos
para leitura o capítulo 1 do 1a volume.
Psicologia da conduta, de J. Bleger (Porto Alegre, Artes Médicas,
1987), e O desenvolvimento do psiquismo, de A. Leontiev (Lisboa,
Livros Horizonte, 1978), são livros que abordam o desenvolvimento do
psiquismo considerando diferentes ordens de determinações.
O aspecto abordado no final do texto da humanização do homem
poderá ser aprofundado com a leitura do texto “Humanização do macaco
pelo trabalho”, do livro A dialética da Natureza, de F. Engels (Rio de
Janeiro, Paz e Terra, 1976), e do livro Pensamento e linguagem, de L.
S. Vigotski (Lisboa, Antídoto, 1975).
Filmes indicados
A guerra do fogo. Direção Jean-Jacques Annaud
(França/Canadá, 1981) – Um filme épico, quase antropológico, sobre o
homem primitivo e a descoberta do fogo.
Pode propiciar um bom debate sobre o processo de humanização.
Trocando as bolas. Direção John Landis (EUA, 1983) – Uma
comédia em que dois irmãos milionários apostam que podem transformar
um corretor de sua empresa em um vagabundo e, ao mesmo tempo,
colocar um mendigo vigarista em seu lugar. [pg. 178]
A multideterminação do humano:
uma visão em Psicologia
“Eu sou eu e a minha circunstância”
Ortega Y Gasset
OS MITOS SOBRE O HOMEM
“Pau que nasce torto, não tem jeito, morre torto!”
Eis aqui um provérbio popular que expressa por inteiro o que
pretendemos questionar e discutir neste capítulo.
E não é só na crença popular que está presente a idéia de que o
ser humano nasce já dotado das qualidades que, no decorrer de sua
vida, irão ou não se manifestar. Na Filosofia encontraremos, em diversas
correntes, idéias semelhantes a esta.
Bleger, em seu livro Psicologia da conduta, sistematiza pelo menos
três mitos filosóficos, que influenciaram as ciências humanas em geral
e a Psicologia em particular, e que apresentam a idéia de que o homem
nasce pronto.
• O mito do homem natural: concebe o homem como possuidor de uma
essência original que o caracteriza como bom, possuindo qualidades
que, por influência da organização social, se manifestariam, perderiam
ou modificariam, isto é, o homem nasce bom, mas a sociedade o
corrompe.
• O mito do homem isolado: supõe o homem como, originária e
primitivamente, um ser isolado, não-social, que desenvolve
gradualmente a necessidade de relacionar-se com os outros indivíduos.
Alguns teóricos consideram necessário, para esse relacionamento, um
instinto especial, que Le Bon, um dos pioneiros da Psicologia social,
denominou instinto gregário. Sem esse instinto, o homem não
conseguiria relacionar-se com seus semelhantes, e seria impossível a
formação da sociedade.
• O mito do homem abstrato: nessa concepção, o homem surge como
um ser cujas características independem das situações de vida. O ser
está isolado das situações históricas e presentes em [pg. 167] que
transcorre sua vida. O homem é estudado como o “homem em geral”, e
seus atributos ou propriedades passam a ser apresentados como
universais, independentes do momento histórico e tipo de sociedade
em que se insere e das relações que vive. Neste caso, uma pessoa que
viveu na época do Brasil Colônia não diferiria de uma pessoa do Brasil
atual, como se o desenvolvimento econômico e tecnológico não
interferisse na formação do indivíduo.
Sob o nosso ponto de vista, o homem não pode ser concebido
como ser natural, porque ele é um produto histórico, nem pode ser
estudado como ser isolado, porque ele se torna humano em função de
ser social, nem ser concebido como ser abstrato, porque o homem é o
conjunto de suas relações sociais. E é disto que iremos tratar neste
capítulo.
QUEM É O HOMEM?
Essa pergunta tem instigado poetas, filósofos, cientistas e homens
de todos os tempos, e mais uma vez nos deparamos com ela.
O poeta Carlos Drummond de Andrade, também preocupado com
o homem, pergunta em sua poesia:
Mas que coisa é homem,
que há sob o nome:
uma geografia?
um ser metafísico?
uma fábula sem
signo que a desmonte?
Como pode o homem
sentir-se a si mesmo,
quando o mundo some?
Como vai o homem
junto de outro homem,
sem perder o nome?
E não perde o nome
e o sal que ele come
nada lhe acrescenta
nem lhe subtrai
da doação do pai?
Como se faz um homem?
Apenas deitar,
copular, à espera?
de que do abdômen
brote a flor do homem?
Como se fazer
a si mesmo, antes
de fazer o homem?
Fabricar o pai
e o pai e outro pai
e um pai mais remoto
que o primeiro homem?
(...)1 [pg. 168]
Então, quem é o homem?
Várias respostas podem ser dadas a esta pergunta, expressando
diferentes pontos de vista ou diferentes visões de homem.
Nós escolhemos uma delas para apresentar aqui, e que é, na
verdade, a concepção de homem que fundamenta este livro:
O HOMEM É UM SER SÓCIO-HISTÓRICO
Mas, para que essa concepção fique mais clara, é necessário
desenvolvê-la melhor.
A primeira coisa que podemos dizer sobre o homem é que ele
pertence a uma espécie animal — Homo sapiens. Todos nós
dependemos dos genes que recebemos de nossos ancestrais para
formar nosso corpo, obedecendo às características de nossa espécie.
1 Carlos Drummond de Andrade. Especulações em torno da palavra homem. In: Obra completa. Rio de
Janeiro, José Aguilar, 1967. v. único. p. 302.
A evolução do
homem
No entanto, a Biologia já nos ensinou que os genes se manifestam
sob determinadas condições ambientais (físicas e sociais). Experiências
demonstram que peixes com determinado gene para cor de olho, quando
nascidos em um meio experimental distinto de seu meio natural,
apresentam olhos de outra cor. É por isso que se diz que todos os traços,
físicos ou mentais, normais ou não, são ao mesmo tempo genéticos e
ambientais.
Temos, portanto, um conjunto de traços herdados que, em contato
com um ambiente determinado, têm como resultado um ser específico,
individual e particular.
O que a natureza (o biológico) dá ao homem quando ele nasce
não basta, porém, para garantir sua vida em sociedade. [pg. 169] Ele
precisa adquirir várias aptidões, aprender
as formas de satisfazer as necessidades,
apropriar-se, enfim, do que a sociedade
humana criou no decurso de seu
desenvolvimento histórico.
Se você pensar nas coisas que sabe
fazer — escovar os dentes, comer com
talheres, beber água no copo, jogar futebol
e video game, escrever, ler este texto,
discuti-lo —, compreenderá que nossas
aptidões, nosso saber-fazer, não são
transmitidos por hereditariedade biológica,
mas adquiridos no decorrer da vida, por
um processo de apropriação da cultura
criado pelas gerações precedentes.
O HOMEM APRENDE A SER HOMEM
Não queremos dizer com isso que o homem esteja subtraído
do campo de ação das leis biológicas, mas que as modificações
biológicas hereditárias não determinam o desenvolvimento sócio-
A criança aprende e reproduz o curso
do desenvolvimento histórico da
humanidade.
histórico do homem e da humanidade: dão-lhe sustentação. As
condições biológicas permitem ao homem apropriar-se da cultura e
formar as capacidades e funções psíquicas.
A única aptidão inata no homem é a aptidão para a formação de
outras aptidões.
Essas aptidões se formarão a partir do contato com o mundo dos
objetos e com fenômenos da realidade objetiva, resultado da experiência
sócio-histórica da humanidade. E o mundo da ciência, da arte, dos
instrumentos, da tecnologia, dos conceitos e idéias. Para se apropriar
desse mundo, o homem desenvolve atividades que reproduzem os
traços essenciais da atividade acumulada e cristalizada nesses produtos
da cultura. São exemplos esclarecedores a aprendizagem do manuseio
de instrumentos e a da linguagem.
Os instrumentos humanos levam em si os traços característicos da
criação humana. Estão neles fixadas as operações de trabalho [pg. 170]
historicamente elaboradas. Pense numa enxada ou em um lápis. A mão
humana, que produziu esses objetos, subordina-se a eles, reorganizando
os movimentos naturais do homem e formando capacidades motoras
novas, capacidades que ficaram incorporadas nesses instrumentos.
Também o domínio da linguagem não é outra coisa senão o
processo de apropriação das significações e das operações fonéticas
fixadas na língua.
Assim, a assimilação pelo homem de sua cultura é um processo de
reprodução no indivíduo das propriedades e aptidões historicamente
formadas pela espécie humana. A criança, colocada diante do mundo
dos objetos humanos, deve agir adequadamente nesse mundo para se
apropriar da cultura, isto é, deve aprender a utilizar os objetos. Torna-se,
então, condição fundamental para que isso ocorra, que as relações do
indivíduo com o mundo dos objetos sejam mediadas pelas relações com
os outros indivíduos. A criança é introduzida no mundo da cultura por
outros indivíduos, que a guiam nesse mundo.
H. Piéron resume esse pensamento em uma frase bastante
interessante:
“A criança, no momento do nascimento, não passa de um candidato à
humanidade, mas não a pode alcançar no isolamento: deve aprender a ser um
homem na relação com os outros homens”2.
Duas imagens são interessantes aqui: ainda que coloquemos os
objetos da cultura humana na gaiola de um animal, isso não torna
possível a manifestação das propriedades específicas que estes objetos
têm para o homem. O animal não se apropria desses objetos e das
aptidões cristalizadas neles. Pode manuseá-los, mas eles não passarão
de elementos do meio natural. O homem, ao contrário, aprenderá com os
outros indivíduos a utilizá-los, extraindo do objeto aptidões motoras.
Outra imagem é a de uma catástrofe no planeta que eliminasse
todos os adultos e preservasse as crianças pequenas. A história seria
interrompida, como afirma Leontiev.
“Os tesouros da cultura continuariam a existir fisicamente, mas não existiria
ninguém capaz de revelar às novas gerações o seu uso. As máquinas deixariam
de funcionar, os livros ficariam sem leitores, as obras de arte perderiam a sua
função estética. A história da humanidade teria de recomeçar”3. [pg. 171]
Se retomarmos agora a formação biológica de cada indivíduo, com
cargas genéticas diferentes, poderemos postular aqui que as disposições
inatas que individualizam cada homem, deixando marcas no seu
desenvolvimento, não interferem no conteúdo ou na qualidade das
possibilidades de desenvolvimento, mas apenas em alguns traços
particulares da sua atividade. Assim, a partir do aprendizado ou da
apropriação de uma língua tonal, os indivíduos, independentemente de
suas cargas hereditárias, formarão o ouvido tonal (capaz de discernir a
altura de um complexo sonoro e distinguir as relações tonais). No
entanto, nessa população, alguém poderá ter herdado de seus pais
2 Apud A. Leontiev. O desenvolvimento do psiquismo. p. 238.
3 A. Leontiev. Op. cit. p. 272.
ouvido absoluto, o que lhe dará uma acuidade auditiva diferenciada,
possibilitando-lhe tornar-se um músico brilhante.
Essas diferenças entre os indivíduos existem, mas não são elas
que justificam as grandes diferenças que temos em nossa sociedade.
Pois, repetindo, essas diferenças biológicas geram apenas alguns traços
particulares na atividade dos indivíduos. Ou seja, todos aprendem a
fazer, só que colorem seu fazer com alguns traços particulares,
singulares, individuais. As nossas diferenças sociais são muito maiores
— temos crianças que sabem fazer e outras que não aprenderam e,
portanto, não desenvolveram certas aptidões. Essas diferenças estão
fundadas no acesso à cultura, que em nossa sociedade se dá de forma
desigual. Existem crianças que não têm brinquedos sofisticados, e até
aquelas que não têm os mais comuns; crianças que não manuseiam
talheres ou lápis; crianças que não andam de bicicleta, ou que nunca
viajaram. Temos até muitos adultos que não aprenderam a ler e escrever
e, portanto, nunca leram um livro; que nunca saíram do local onde
nasceram e não sabem que o homem já vai à Lua; nunca viram um
avião, nem imaginam o que seja um computador. Esses são alguns
exemplos. Não precisamos nos alongar, porque você, com certeza, já
percebeu essas diferenças. Ora, se desenvolvemos nossa humanidade a
partir da apropriação das realizações do progresso histórico, é claro que,
numa sociedade onde essa igualdade não ocorre, fica excluída a
possibilidade de igualdade entre os indivíduos.
“É por isso que a questão das perspectivas de desenvolvimento psíquico do
homem e da humanidade põe antes de mais nada o problema de uma
organização equitativa e sensata da vida da sociedade humana — de uma
organização que dê a cada um a possibilidade prática de se apropriar das
realizações do progresso histórico e participar enquanto criador no crescimento
destas realizações4“,
podendo cada um desenvolver seu potencial para que se
expressem suas particularidades. [pg. 172]
4 A. Leontiev. Op. cit. p. 257.
O QUE CARACTERIZA O HUMANO?
Quando nos colocamos essa questão, estamos querendo explicitar
as propriedades ou características que fazem do animal homem um ser
humano. O que nos distingue dos outros seres? Quais são nossas
particularidades enquanto seres humanos?
O HOMEM TRABALHA E UTILIZA INSTRUMENTOS
Inicialmente, salientamos como característica humana o trabalho e
o uso de instrumentos. Alguns animais, talvez a maioria deles, executam
atividades que se assemelham ao trabalho humano: a aranha que tece a
teia, a abelha que fabrica a colméia e as formigas que incessantemente
carregam folhas e restos de animais para sua “cidadela”. E poderíamos
dizer que as operações desses animais se assemelham às de
trabalhadores humanos — tecelões, arquitetos e operários. Mas o mais
inábil trabalhador humano difere do mais “habilidoso” animal, pois, antes
de iniciar seu trabalho, já o planejou em sua cabeça. No término do
processo de trabalho, o homem obtém como resultado algo que já existia
em sua mente. O trabalho humano está subordinado à vontade e ao
pensamento conceitual.
O uso de instrumentos também não é exatamente uma novidade
As relações sociais e as
atividades do homem no
mundo são as
responsáveis pela sua
configuração como ser.
no mundo animal. O castor, o
macaco, algumas espécies de
aves também fazem uso de
instrumentos. Mas esse uso
está marcado pelo fato de o
animal não ter consciência
disso. Se um macaco [pg. 173]
vê à sua frente um pedaço de
pau, poderá com ele tentar
apanhar uma fruta em local
pouco acessível, mas, se não
há nenhum instrumento à vista,
ele fica sem a fruta. O macaco não tem condições de raciocinar: “Poxa, e
aquele pauzinho que eu usei ontem, onde será que eu deixei?”.
O macaco tem a imagem do instrumento, mas não tem o conceito
de instrumento. Ele aprende a utilizá-lo, mas não pode dizer ou pensar
para que serve.
Uma breve história de um experimento poderá ajudar a
entendermos esta afirmação de que o macaco aprende mas não
conceitua.
Numa oportunidade, exatamente para testar este ponto, alguns psicólogos
treinaram um macaco de laboratório para apagar fogo — um macaco bombeiro.
Primeiro, sabendo que o macaco gostava muito de maçã, eles o treinaram para
apanhar uma maçã em uma plataforma um pouco distante de sua gaiola. Sempre
que tocava um sinal, o macaco corria em direção à maçã. O próximo passo,
sabendo do verdadeiro pavor que os macacos têm do fogo, foi colocar em volta
da maçã um pequeno círculo de fogo. Naturalmente, o macaco desistiu da maçã.
Em seguida, por meio de condicionamento, ensinaram o pequeno animal a usar
um balde com água para apagar o fogo. Depois de bem treinado, veio o passo
final. Colocaram a plataforma com a maçã e o círculo de fogo no meio de um
tanque com água com altura suficiente para o macaco atravessá-lo. Resultado: o
macaco foi até o lugar onde estava a maçã, viu o fogo, saiu do tanque e foi
Apesar de manipular a máquina fotográfica à
semelhança do homem, o macaco não tem consciência
de sua utilidade.
apanhar o balde com água para apagá-lo.
Veja só, o macaco aprendeu a usar o conteúdo do balde para
apagar o fogo, mas não foi capaz de conceitualizá-lo, já que não
percebeu que o conteúdo do balde era o mesmo do tanque. Entretanto,
se estivesse com sede, ele beberia indistintamente tanto o conteúdo do
tanque como o do balde.
Então, para que o instrumento seja considerado um instrumento de
trabalho, é necessário que a sua representação na mente [pg. 174] seja
conceitualizada e, desta maneira, transforme-se em um primeiro dado de
consciência.
O HOMEM CRIA E UTILIZA A LINGUAGEM
Para o psicólogo Alexis Leontiev, a linguagem é o elemento
concreto que permite ao homem ter consciência das coisas. Mas, para
chegar até a linguagem, houve alguns antecedentes. Se raciocinarmos
em termos evolutivos (teoria evolucionista de Darwin), o homem teve sua
origem a partir de um antropóide.
As condições para que o homem chegasse até a linguagem foram
as seguintes:
1. esse antropóide aprendeu a andar sem usar as mãos, ficou ereto e
com as mãos livres;
2. esse antropóide vivia em grupo (como ocorreu com muitas espécies
de macacos);
3. esse grupo de antropóides tinha dedo opositor, o que permitia a
utilização de instrumentos (por exemplo, um pedaço de pau para
apanhar alimentos);
4. o sistema nervoso dispunha de suporte mínimo para o
desenvolvimento da linguagem.
No decorrer da evolução do homem atual (são cerca de 5 milhões
de anos desde o aparecimento do australopithecus aferensis, primeiro
antropóide ou macaco com características humanóides, até o homo
neanderthalensi e o homo sapiens primitivos — nossos antepassados
diretos, que provavelmente surgiram há 30 mil anos), aprendemos a
transformar o instrumento em instrumento de trabalho (instrumento com
objetivo determinado), a registrá-lo simbolicamente em nosso sistema
nervoso central (aparecimento da consciência) e a denominá-lo
(aparecimento da linguagem).
Este desenvolvimento foi, evidentemente, muito lento (5 milhões de
anos representam muito, mas muito tempo mesmo...). Cada avanço
representou uma enorme conquista para o desenvolvimento da
humanidade. A descoberta de que a vocalização (transformação de um
grunhido em som com significado) poderia ser usada na comunicação
equivale, nos tempos atuais, à descoberta dos chips eletrônicos.
O fato é que o instrumento de trabalho induz o aparecimento da
consciência (isso ocorre de forma concomitante) e cria as [pg. 175]
condições para o surgimento da linguagem — três condições que
impulsionam o desenvolvimento humano.
O HOMEM COMPREENDE O MUNDO AO SEU REDOR
Todos nós já observamos o comportamento de uma pequena
aranha na sua teia. A teia é tecida para garantir sua alimentação e,
quando um desavisado inseto bate nessa teia, fica preso a ela. Pronto, o
almoço está garantido! O inseto, que também luta pela sobrevivência,
debate-se tentando escapar da armadilha. Esta vibração é uma espécie
de aviso para a aranha, que dispara em direção a ela e envolve o inseto,
aplicando-lhe seu veneno. Se nós pegarmos um diapasão e vibrarmos
esse instrumento junto à teia da aranha, estaremos simulando uma
situação parecida com a vibração causada pelo inseto. O resultado é que
a aranha irá ao encontro do ponto de vibração e envolverá com seu fio
aquele ponto vibrante sem nenhum inseto. Esta simples experiência
demonstra que o comportamento da aranha é predeterminado,
geneticamente marcado.
O homem, diferentemente, compreende o que ocorre na realidade
ambiente. Quando percebemos algo, refletimos esse real na forma de
imagem em nosso pensamento. Muitos animais apresentam essa
possibilidade. Mas nós, homens, compreendemos — relacionando e
conceituando — o que está a nossa volta.
A consciência reflete o mundo objetivo. É a construção, no nível
subjetivo, da realidade objetiva. Sua formação se deve ao trabalho e às
relações sociais surgidas entre os homens no decorrer da produção dos
meios necessários para a vida.
Este fator fundamental, a consciência, separa o homem dos
outros animais e é o que lhe dá condições de avaliar o mundo que o
cerca e a si mesmo. Só o homem é capaz de fazer uma poesia
perguntando uma coisa muito difícil de responder: Quem sou eu? De
onde vim?
Sem dúvida, a compreensão ou o saber que o homem desenvolve
sobre a realidade ambiente não se encontra todo como saber consciente
— conhecimento. O homem sabe seu mundo de várias formas: através
das emoções e sentimentos e através do inconsciente. Portanto, essas
formas também se constituem como características do humano.
A consciência (incluída a consciência de si), sentimentos e
emoções, o inconsciente podem ser reunidos no que chamamos, em
Psicologia, subjetividade ou mundo interno. [pg. 176]
AFINAL, QUEM É O HOMEM?
Agora temos condições de retomar o provérbio “pau que nasce
torto, não tem jeito, morre torto”, que introduziu nosso capítulo, e
questioná-lo. Esse provérbio abandona por completo a noção de ser
histórico, social e concreto, quando liga definitivamente o ser que nasce
ao ser que morre, ou seja, supõe que não há transformação desse
homem. As experiências concretas de vida em determinada época,
cultura, classe social, grupo étnico, grupo religioso etc. são, na
concepção do provérbio, absolutamente inofensivas, inúteis, sem
influência alguma sobre o ser que nasce. O ser que morre não é pensado
como resultante de toda uma vida real, de todo um conjunto de
condições materiais experienciadas, que determinam o desenvolvimento
do ser que nasceu.
As propriedades que fazem do homem um ser particular, que
fazem deste animal um ser humano, são um suporte biológico
específico, o trabalho e os instrumentos, a linguagem, as relações
sociais e uma subjetividade caracterizada pela consciência e
identidade, pelos sentimentos e emoções e pelo inconsciente. Com isso,
queremos dizer que o humano é determinado por todos esses
elementos. Ele é multideterminado.
Questões
1. Explique os mitos do homem natural, do homem isolado e do homem
abstrato.
2. Explique a concepção apresentada do homem como ser sóciohistórico.
3. Por que H. Piéron diz que a criança ao nascer não passa de um
candidato à humanidade?
4. O que caracteriza o humano? Fale um pouco de cada aspecto.
Atividades em grupo
1. Discuta com seu grupo respondendo à pergunta: Quem é o homem?
Utilizem a forma de expressão que desejarem. Apresentem para a
classe o resultado da discussão.
2. Discutam a afirmação: O homem aprende a ser homem.
3. “Pau que nasce torto, não tem jeito, morre torto.” Discutam essa frase
a partir da concepção da multideterminação do homem, utilizando o
filme Trocando as bolas como base para um debate entre grupos
que defendam posições contrárias. [pg. 177]
Bibliografia indicada
Sobre este tema, não há uma bibliografia introdutória para o aluno.
Como leitura que aprofunda aspectos abordados neste texto,
indicamos: A ideologia alemã, de K. Marx e F. Engels (Lisboa,
Presença; São Paulo, Martins Fontes, 1980). Deste livro, destacamos
para leitura o capítulo 1 do 1a volume.
Psicologia da conduta, de J. Bleger (Porto Alegre, Artes Médicas,
1987), e O desenvolvimento do psiquismo, de A. Leontiev (Lisboa,
Livros Horizonte, 1978), são livros que abordam o desenvolvimento do
psiquismo considerando diferentes ordens de determinações.
O aspecto abordado no final do texto da humanização do homem
poderá ser aprofundado com a leitura do texto “Humanização do macaco
pelo trabalho”, do livro A dialética da Natureza, de F. Engels (Rio de
Janeiro, Paz e Terra, 1976), e do livro Pensamento e linguagem, de L.
S. Vigotski (Lisboa, Antídoto, 1975).
Filmes indicados
A guerra do fogo. Direção Jean-Jacques Annaud
(França/Canadá, 1981) – Um filme épico, quase antropológico, sobre o
homem primitivo e a descoberta do fogo.
Pode propiciar um bom debate sobre o processo de humanização.
Trocando as bolas. Direção John Landis (EUA, 1983) – Uma
comédia em que dois irmãos milionários apostam que podem transformar
um corretor de sua empresa em um vagabundo e, ao mesmo tempo,
colocar um mendigo vigarista em seu lugar. [pg. 178]
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