CAPÍTULO 19
Meios de comunicação de massa
Os meios de comunicação de
massa ganharam uma importância
formidável nos últimos tempos. Não é
por acaso que alguns chamam a
imprensa de “o quarto poder”. Trata-se
de uma alusão à importância que a
difusão da informação ganhou no mundo
contemporâneo. Uma parte dos
conteúdos difundidos pelos meios de
comunicação de massa é estudada no
campo das teorias da comunicação, da
semiótica e da Psicologia. Nesse
sentido, a Psicologia tem sido muito utilizada em função do seu
conhecimento sobre a subjetividade humana. É disso que trata esse
capítulo sobre os meios de comunicação de massa, conhecidos também
como mídia (termo que advém do inglês mass media e que significa
meios de massa ou meios de comunicação de massa).
A Psicologia é utilizada para a análise do material jornalístico
quando, por exemplo, o jornalista avalia o conteúdo da matéria que está
escrevendo e ao qual aplica noções de Psicologia; ou quando, em casos
Televisão: influência sobre a
subjetividade.
mais específicos, consulta o psicólogo especialista no assunto em pauta.
Rigorosamente, poderíamos dizer que se trata do mesmo fenômeno
observado no cotidiano e já comentado nos primeiros capítulos deste
livro. As pessoas, em geral, possuem um certo conhecimento da
Psicologia e o aplicam na solução de problemas do cotidiano. O jornalista
e o publicitário apropriam-se desse conhecimento e o utilizam com uma
certa competência. Poderíamos [pg. 276]
mesmo afirmar que, nesses casos, a Psicologia é usada por eles com mais competência do que pelo
próprio psicólogo.
Ora, pode parecer estranho afirmar que profissionais da mídia
conhecem mais Psicologia que o próprio psicólogo, mas isso é fácil de
entender. O psicólogo é o profissional que trabalha com a Psicologia e,
nesse campo, certamente é o mais competente e indicado. Mas, no caso
da mídia, o profissional que entende daquele assunto é outro. Um
psicólogo não saberia fazer um bom comercial por não ser a publicidade
a sua área de atuação. O publicitário, entretanto, produz um bom
comercial, não só por conhecer as técnicas desenvolvidas pela
propaganda, mas por conseguir “captar” a subjetividade das pessoas as
quais pretende alcançar.
O psicólogo, é verdade, não saberia fazer o comercial, mas, uma
vez finalizado, ele torna-se um bom analista do campo de subjetividade
produzido por este comercial.
A partir do momento
em que os meios de
comunicação de massa
perceberam a importância de
se trabalhar bem a questão
da subjetividade, a presença
do psicólogo na mídia
passou a ser requisitada com
mais freqüência. Exemplo: as
agências de publicidade —
A Psicologia ganha importância junto aos meios de
comunicação de massa.
que constituem o mercado de trabalho mais desenvolvido para o
psicólogo especializado em mídia — contratam-no para analisar
qualitativamente as peças publicitárias ainda em processo de produção.
Mesmo não tendo as mesmas habilidades de um profissional de
publicidade para produzir um comercial, o psicólogo vem se tornando o
profissional que assessora o setor de criação, ocupando cada vez mais
espaços na mídia.
MEIOS DE COMUNICAÇÃO E
SUBJETIVIDADE — OS LIMITES ÉTICOS
Uma questão importante e freqüentemente lembrada quando se
fala do uso da Psicologia nos meios de comunicação de massa e da
participação de psicólogos neste trabalho refere-se à ética. Qual o limite
do trabalho com a subjetividade? A Psicologia e o psicólogo têm poder
de controlar as pessoas, de fazê-las comprar ou acreditar em algo que
absolutamente não lhes interessa? [pg. 277]
Não é tarefa fácil responder a esta última pergunta, pois o seu
enunciado é, em parte, falso e, em parte, verdadeiro. Falso porque não
se pode conferir tamanho poder nem à Psicologia nem aos meios de
comunicação de massa. É falso, também, afirmar que uma mentira
repetida por muito tempo torna-se verdade. A história tem demonstrado
de forma cabal que não se pode enganar as pessoas o tempo todo. O
jornalista Carlos Eduardo Lins e Silva1 fez um estudo muito interessante
sobre o Jornal Nacional, da Rede Globo, quando assistido por
trabalhadores da Baixada Santista, no Estado de São Paulo. Na época
em que o estudo foi realizado, construía-se o mito de que a Rede Globo,
com sua audiência imbatível (a audiência do JN chegava a 70% dos
televisores ligados), monopolizava a informação veiculada no Brasil.
Assim, o que era noticiado no JN passava a ter o estatuto de verdade, à
medida que não seria contestado por qualquer outro meio de
1 Carlos E. Lins e Silva. Muito além do Jardim Botânico: um estudo sobre a audiência do Jornal Nacional,
da Globo, entre trabalhadores. São Paulo, Summus, 1985.
comunicação (considere que os 30% restantes da audiência estavam
voltados, geralmente, para a programação não-jornalística e que as
pessoas não-sintonizadas no JN eram atingidas pelos comentários das
que o assistiram). Entretanto, o estudo de Lins e Silva demonstrou que
os trabalhadores, quando viam um noticiário sobre greve com conteúdo
claramente a favor das posições governistas e empresariais,
decodificavam a mensagem, depurando-a da opinião da emissora e
analisando o conteúdo pelo que a notícia oferecia de objetivo. Os trabalhadores
pesquisados faziam uma releitura da informação e a reconstruíam
de acordo com a visão sindical da cultura operária. Estes
sujeitos, os operários, tinham uma outra fonte de informação (no caso, a
imprensa operária, o trabalho sindical e a própria vivência) para avaliar o
material jornalístico veiculado pela TV.
É claro que, em outras situações, não temos a informação alternativa
à nossa disposição e tendemos a acreditar na informação
fornecida. Mas, de maneira geral, as pessoas sabem que, quando se
trata de um tema polêmico, elas não devem acreditar piamente na
informação veiculada pelo meio de comunicação de massa.
O problema torna-se maior quando as pessoas não consideram o
tema polêmico e, neste caso, ficam desarmadas (com baixo nível de
criticidade) e sem condições de avaliar a mensagem transmitida. As
mensagens sobre saúde cabem nesta alternativa e, eventualmente, a
mensagem veiculada cria conceitos que podem ser prejudiciais à
população. E freqüente escutarmos alguém dizendo a outra pessoa
como cuidar de determinado problema de saúde a partir do que “deu na
televisão”. [pg. 278]
A PROPAGANDA E O
CONTROLE DA SUBJETIVIDADE
A publicidade também encontra-se nesse campo. Os comerciais
procuram, sempre que possível, fugir de questões geradoras de conflitos
na audiência. Apresentam geralmente um mundo idílico, perfeito, sem
contradições, associando o produto ou serviço a essa atmosfera radiante
e perfeita. Ao mesmo tempo, cuidam de produzir alguma verossimilhança
com a realidade para que as pessoas não se sintam distantes deste
mundo que pode ser alcançado. É nesse momento que nossa
subjetividade é capturada. Essa captura se dá de uma forma muito sutil
e, geralmente, fica muito difícil opor resistência a ela. Neste caso,
diríamos que a resposta à questão colocada anteriormente é verdadeira.
A Psicologia é utilizada pelo publicitário (e mesmo pelo psicólogo) para
alcançar um tipo de convencimento que nos leva ao limite da ética.
Porém, mesmo neste caso, podemos dizer que a resistência é
difícil, mas não impossível. Os meios de comunicação de massa não têm
o controle absoluto da nossa subjetividade. A máquina de propaganda
mais eficiente até hoje construída, implantada com o Terceiro Reich, na
Alemanha nazista, pretendia ter o controle absoluto da subjetividade do
povo alemão e, apesar de ter sido muito eficiente, foi derrotada!
PERSUASÃO
O principal mecanismo psicológico utilizado pelos publicitários e
por profissionais da mídia é a persuasão. Trata-se de um mecanismo de
convencimento que pode ou não ultrapassar as bases racionais da
difusão de uma mensagem.
Quando se trata das bases racionais da mensagem, as quais
utilizam-se apenas do campo cognitivo para garantir sua eficiência, isto
é, alcançar o receptor, tal recurso visa atingir o plano da consciência do
receptor da mensagem. Assim, ele pode compará-la com a informação
disponível e verificar se ela lhe é ou não importante. Neste caso, utilizase
uma informação objetiva, garantindo a veracidade do que é informado.
Quando um locutor de TV diz que, de acordo com informações do satélite
meteorológico, há previsão de chuvas fortes no decorrer do dia,
consideramos a informação verdadeira e nos preparamos para o evento.
Atualmente, essas previsões estão cada vez mais eficientes. Vários
comerciais na TV ou anúncios veiculados em revistas ou jornais
trabalham, fundamentalmente, com as bases racionais. Quando o
publicitário afirma num comercial que a bateria do celular tem
durabilidade de 8 horas, [pg. 279]
ele está fornecendo uma informação de caráter objetivo e os usuários de telefone celular conhecem claramente esse parâmetro da durabilidade da carga da bateria. Esta informação pode ser fundamental na opção de compra e, como se trata de um produto caro, o consumidor geralmente irá checar a veracidade da informação. Todo o processo é bastante racional.
PERSUASÃO E SUBJETIVIDADE
Entretanto, é possível e freqüente a utilização de recursos de base
irracional (de fundo emotivo), que são associados ao conteúdo cognitivo
da mensagem. Tal forma de convencimento tenta persuadir o receptor da
mensagem mais pelo campo da subjetividade do que pelo da
objetividade da informação. A publicidade tornou-se a área da
comunicação que mais explora esse recurso. A técnica mais comum é a
de associar um determinado valor social ao produto anunciado. Assim,
um comercial de TV poderá veicular um clima de intenso glamour, com
situações sofisticadas, como um casal lindíssimo em trajes de gala,
cruzando as taças de champanhe a bordo de um jatinho particular.
Acrescente à cena um pôr-de-sol maravilhoso, troca de gestos e olhares
sedutores. A música, como não poderia deixar de ser, é extremamente
romântica. No instante em que o rapaz tira o maço de cigarros da
casaca, o jatinho trepida e sua companheira derruba a taça de
champanhe sobre ele. Ela ri deliciosamente, levanta-se dando a
impressão de que iria ajudá-lo a secar-se. Em vez disso, toma-lhe,
carinhosamente, o maço de cigarros. Os dois riem. Por fim, um locutor,
em off (só ouvimos a voz), diz: — Gente moderna fuma Device! Veiculase
um clima encantador e a ele associa-se a marca do cigarro. Assim,
define-se o perfil psicológico do fumante daquela marca — uma pessoa
que gosta de coisas glamourosas, apesar de não dispor de condições
econômicas para comprá-las. Tal pessoa poderá se contentar com a
marca de cigarro do anúncio para se identificar com o perfil psicológico
veiculado. Evidentemente, esse processo é muito sutil e as pessoas, em
geral, não se dão conta de que estão sendo capturadas por uma
artimanha publicitária.
O recurso funciona porque não o percebemos claramente, mas ele
é insistentemente utilizado: uma marca de bebida associa-se ao padrão
de masculinidade; um perfume promete conquistas amorosas; um
achocolatado oferece um mundo de diversões; um refrigerante garante
que, ao bebê-lo, você fará muitos amigos. Sexo, poder, riqueza e
aventura são ofertas freqüentes dos comerciais. Um mundo de prazeres
que não encontramos em nosso cotidiano e que, no entanto, são
apresentados como possibilidades. [pg. 280]
Como se dá o fenômeno? Nosso cotidiano é repleto de
regularidades, de regras, de repetições. Vamos à escola todos os dias,
jantamos com a família, assistimos à novela das oito, lemos o texto da
aula de amanhã e dormimos porque, logo cedo, reiniciaremos a rotina. A
aventura fica para o fim de semana ou para as próximas férias. Mesmo
assim, há um temor que nos controla e, quando saímos da rotina, não
fazemos algo tão diferente assim. Quando alguma coisa realmente
diferente acontece em nossas vidas, ou na vida de nossos amigos,
transforma-se num caso que será contado e re-contado por algum
tempo.
Isto ocorre porque temos mecanismos psicológicos que nos
protegem de frustrações e nos preparam para viver as restrições que a
cultura nos impõe (restrições de ordem moral) e as que nos são
colocadas pelo sistema econômico (as restrições da desigualdade
econômica). De certo que há um padrão conformista neste processo,
mas é um mecanismo de defesa eficiente. A publicidade apresenta-nos,
intensa e continuamente, a oferta do paraíso e da ascensão social ao
mesmo tempo em que a sociedade, através das restrições da cultura (a
possibilidade de realizar o proibido), torna remotas as possibilidades de
que tal paraíso seja alcançado.
Esse mecanismo de defesa, entretanto, é fustigado pelo retorno de
conteúdos inconscientes, que foram recalcados por um, digamos,
“acordo social”. É o caso da proibição do incesto, maneira pela qual as
culturas primitivas estabeleceram um tabu que contribuiu para a
diversificação genética com a celebração do casamento fora dos clãs. A
monogamia também se impôs à poligamia como padrão cultural visando
garantir o controle da propriedade privada. O desejo por uma mulher que
não seja a esposa está recalcado há milênios e faz parte do rol de
proibições de leis religiosas muito antigas. Mesmo em sociedades
poligâmicas, como a muçulmana, o adultério é punido rigorosamente.
Nas sociedades ocidentais, como a nossa, o adultério não chega a ser
ilegal e, pode-se dizer, ocorre com certa freqüência. Há, contudo, uma
punição moral que estigmatiza a pessoa adúltera e, particularmente, a
pessoa traída pelo parceiro, que perde prestígio junto à sociedade. (Os
mecanismos de defesa estão expostos de forma mais pormenorizada no
capítulo 5, destinado à Psicanálise.)
Ao expor o apelo sexual ou conteúdos que são restringidos aos
vários segmentos sociais, a propaganda oferece um objeto de desejo
imaginário (uma relação inconsciente), que se concretiza no produto
anunciado. O produto não é motivo de restrição e, ao mesmo tempo, faz
alusão ao desejo proibido ou de difícil realização (o conteúdo que foi
recalcado no inconsciente no processo de desenvolvimento de uma
cultura). [pg. 281]
O circuito se fecha quando, depois de capturado por essa dinâmica
inconsciente, o consumidor justifica o uso constante do produto por suas
características racionais. Assim, ninguém poderá confessar que compra
determinado produto por associá-lo aos recônditos desejos sexuais, ou
de poder, ou de aventura (tais desejos têm peso e valor diferentes, sendo
que alguns são mais confessáveis que outros). O fumante, então, atribui
ao sabor e à suavidade do cigarro sua preferência por tal marca.
Escolhe-se determinada bebida alcoólica pelas suas características
organolépticas (ligadas ao paladar) e o dentifrício “x” pelo sabor de
menta ou pelo flúor que previne contra a cárie. Nós temos plena certeza
de que o sabor de certo achocolatado é melhor que o de todas as outras
marcas disponíveis no
mercado. Curiosamente,
“testes cegos” (quando a
pessoa não sabe qual o
produto experimentado)
têm demonstrado que as
pessoas não são
capazes de reconhecer
o produto da sua
preferência quando
comparado a um similar.
Neste caso, cai por terra
boa parte dos
argumentos racionais
apresentados para a escolha de um produto. Quem já fez um teste
rigoroso com várias marcas de detergente em pó para saber qual delas
lava mais branco? O que temos, na realidade, é a impressão de que a
marca que utilizamos é a melhor e a propaganda é que nos garante a
eficiência do produto.
A LINGUAGEM DA SEDUÇÃO
A artimanha utilizada para o convencimento não precisa ser
sofisticada ou trabalhar sempre com recônditos desejos. Ela pode estar
embutida de forma sutil na construção lingüística da mensagem. Um
fabricante de biscoito tem anunciado seu produto com uma pergunta:
“Tostines é mais fresquinho porque vende mais ou vende mais porque é
fresquinho?”. Há na pergunta uma tautologia (uma forma circular) que
leva o consumidor, seja qual for a resposta, a considerar tal biscoito
sempre [pg. 282]
“fresquinho” e, portanto, melhor que os biscoitos
concorrentes. Entretanto, os consumidores sabem que as outras marcas
A escolha do consumidor nem sempre está baseada em critérios
objetivos e racionais.
também oferecem biscoitos “fresquinhos”. A forma como a mensagem é
apresentada conduz o consumidor incauto a considerar, de forma sutil
(pois ninguém se detém a fazer análises lingüísticas dos comerciais), que
aquela marca faz os melhores biscoitos (ao menos os mais
“fresquinhos”). Evidentemente que, no caso do biscoito — um produto
relativamente barato e acessível —, a mensagem não é o único critério
que influi na decisão de compra. A experimentação do biscoito escolhido
e do produto da concorrência também é um critério decisivo, pois será
utilizado posteriormente na decodificação da mensagem. O comercial
que promete um benefício não comprovado pelo consumidor durante a
experimentação do produto ou serviço certamente será alvo de forte
descrédito. A história do marketing apresenta inúmeros casos de
produtos que foram lançados com um apoio de mídia muito bem
elaborado e sofisticado e que, devido a promessas mal-equacionadas,
resultaram em estrondosos fracassos de venda.
PROPAGANDA IDEOLÓGICA
Um outro campo muito próximo do que acabamos de ver é o da
propaganda ideológica. Neste caso, usa-se menos a técnica de
comunicação para atingir mecanismos inconscientes que propiciem o
convencimento para a compra de determinado produto (e, em alguns
casos, de mecanismos conscientes e, na maioria dos casos, das duas
formas combinadas). A propaganda ideológica trabalha com conteúdos
ideacionais, com crenças que procuram alterar o campo cognitivo das
pessoas. Sabe-se que a opinião é garantida por três fatores: a ação do
indivíduo em relação a sua crença, o afeto dedicado à crença e o próprio
conhecimento da existência do objeto de crença.
Se alguém for impedido de agir de acordo com a sua crença, esse
impedimento produzirá um quadro de dissonância, o qual levará a
pessoa a tentar superar o conflito criado pela proibição. Assim, o
indivíduo ou tenderá a evitar a situação de controle de seu
comportamento ou mudará sua crença. É evidente que, em muitas
situações, as pessoas encontram maneiras de resistir às formas de
controle e esta é uma característica humana muito valorizada. Os judeus
foram duramente perseguidos desde a
antiguidade e, no entanto, [pg. 283]
sua cultura se mantém até hoje graças à
resistência desse povo ao controle que
lhes tentaram impor. A proibição ao culto
judaico não foi obstáculo para a
realização desta celebração.
Os fatores cognitivo e afetivo são
os mais utilizados pela propaganda ideológica.
Ambos podem ser alterados de
acordo com a informação que temos
sobre o objeto da comunicação.
Exemplo: os conflitos étnicos registrados
atualmente na Europa geram
campanhas de parte a parte, nas quais
procura-se conferir ao campo inimigo um atributo (mensagem que pode
ou não ser verdadeira) até então desconhecido pela população a que se
dirige a mensagem. A informação de que os sérvios promoveram
verdadeiros massacres entre os muçulmanos da Bósnia visando uma
“limpeza étnica” abalou qualquer simpatia que a opinião pública mundial
poderia alimentar pela causa sérvia. Neste
caso, um dado cognitivo novo (o massacre
de muçulmanos) mudou a base afetiva em
relação a um objeto da comunicação (a
causa sérvia).
Muitas vezes, a propaganda contra
uma causa é feita sem que informações
objetivas sejam veiculadas. Apresenta-se o
objeto da informação com a intenção de
gerar, no receptor, antipatia pelo conteúdo
A forma de divulgação de um conflito
étnico tem cunho ideológico.
trabalhado. Um exemplo disso é a capa da revista Veja na qual o líder do
Movimento Sem-Terra (MST), Pedro Stedelli, foi colocado sob um fundo
vermelho, com o semblante irado e o rosto avermelhado. A mensagem
não era desfavorável (nem favorável) ao MST, mas Stedelli foi veiculado
como se fosse o próprio diabo. Neste caso, o desconforto causado pela
apresentação [pg. 284]
da capa pode gerar antipatia dos leitores que tenham alguma restrição ao MST ou mesmo adotem uma posição de neutralidade. A antipatia (fator afetivo) é o componente que facilitará a mudança de posição em relação ao movimento que, de positiva, passará a negativa (fator cognitivo).
A CONSTRUÇÃO DA
LINGUAGEM CINEMATOGRÁFICA
A técnica de veiculação da imagem, desenvolvida principalmente
pela linguagem cinematográfica e muito usada na propaganda ideológica
e comercial, também é fonte de manipulação ideológica. Durante e após
a Segunda Guerra Mundial, o próprio cinema foi muito utilizado pelos
americanos com objetivos publicitários. Os alemães também usavam o
mesmo recurso e Goebbels, ministro da propaganda de Hitler, foi
considerado um gênio publicitário pela maneira como conseguiu
convencer boa parte do povo alemão dos ideais nazistas. O nazismo,
felizmente, foi derrotado e os americanos, por sua vez, passaram a usar
a indústria cinematográfica para convencer o mundo de que o seu modo
de vida era (é) o melhor. O padrão cultural americano foi se espalhando
pelo mundo, principalmente através do cinema e, mais recentemente,
através da TV.
A linguagem cinematográfica é a linguagem da imagem, da
expressão iconográfica da qual deriva um caráter subjetivo muito forte.
Alguns autores dizem que a decodificação da imagem cinematográfica
pode produzir um certo fragor, o que poderíamos traduzir por um
incômodo na busca da significação. Assim, quando o cineasta escolhe
um determinado plano de exposição da imagem, estará também
escolhendo uma reação do público. Por exemplo, se o cineasta quiser
transmitir à platéia a sensação de poder de uma personagem, usará um
plano denominado sub-plongé,
cuja tomada se dá com a
câmera colocada de baixo
para cima, a partir da cintura
da personagem. Este recurso
foi utilizado por Orson Welles
num dos maiores clássicos de
todos os tempos — Cidadão
Kane. A platéia entende
imediatamente o significado
da imagem porque
acompanha desde o início do filme a forma como Kane acumula riqueza
e poder. Não é necessária nenhuma explicação mais elaborada. A
imagem diz tudo.
Entretanto, quando esta técnica de linguagem cinematográfica é
utilizada sem uma história que a sustente, como, por exemplo, [pg. 285]
para apresentar ao público um determinado político, tal procedimento
gera uma dissonância que, por sua vez, produzirá o fragor — uma forma
de incômodo. A maneira encontrada para aplacar este incômodo será
atribuir, ao político em questão, uma condição de poder que ele pode não
possuir. É a forma como freqüentemente a mídia americana apresenta o
líder cubano Fidel Castro. Evidentemente, todos sabemos que Cuba não
possui um milésimo do poderio militar dos Estados Unidos, mas os
cubanos e, particularmente, seu líder, são apresentados como uma
ameaça latente ao povo americano. A imagem de Fidel Castro andando
tranqüilamente entre os cubanos, em Havana, cumprimentando pessoas,
conversando nas ruas, jamais é transmitida. Por sua vez, a imagem com
tomadas sub-plongé são veiculadas ao extremo, corroborando a imagem
“tirânica” construída pelos americanos. No Iraque, pode-se dizer que
Saddam Hussein utiliza este mesmo procedimento para satanizar a
Cidadão Kane, considerado um dos melhores filmes de
todos os tempos, é um bom exemplo do uso da
linguagem cinematográfica.
figura dos americanos e convencer a população iraquiana de que a
intervenção dos Estados Unidos no Oriente Médio é ilegítima; em Cuba,
os meios de comunicação estão constantemente lembrando o povo
cubano do perigo yankee (como são conhecidos os americanos).
O recurso de propaganda ideológica sempre é acompanhado da
contrapropaganda, e as técnicas utilizadas por um lado serão
rapidamente assimiladas por outro. Num sentido bem mais estrito e
doméstico, é o que vemos em nossas campanhas eleitorais pela
televisão. O argumento de um candidato será imediatamente
neutralizado pelo do seu concorrente. Para que as mensagens — com
seus recursos objetivos e subjetivos — sejam assimiladas e
decodificadas pelo receptor e para que este confira-lhes credibilidade
para formar uma nova opinião sabre o assunto, é preciso que ele esteja
predisposto a isso. A predisposição é avaliada pelos antecedentes de
caráter social, os quais determinam não só a experiência com o
fenômeno — no caso, o político — mas a opinião anterior sobre tal
fenômeno. Se um candidato ao governo pretende mudar a sua imagem
de corrupto junto à maior parte do eleitorado, ele poderá trabalhar a idéia
de que realiza mais obras e, por isso, é mais competente para governar.
Ele evita falar dos seus pontos fracos e atribui [pg. 286]
ao desespero dos adversários os ataques à sua honra. Entretanto, para que a mensagem deste candidato tenha algum efeito, é preciso que a maioria
do eleitorado esteja, naquele momento, desconsiderando questões éticas
como parâmetro para o seu voto. Ou considere que esta questão não
seja superior às necessidades de obras ou de maior policiamento.
Nas campanhas eleitorais, todos os recursos disponíveis de mídia
e de linguagem cinematográfica são utilizados na apresentação de
propostas de governo ou de atuação parlamentar, tornando tais
campanhas cada dia mais próximas da linguagem publicitária (surgem os
“marqueteiros” políticos) e distanciando-as do campo ideológico.
Entretanto, temos, também,
como um divisor de águas ideológico. São campanhas nas quais um
candidato defende posições claramente sociais (de cunho socialista) ou
neoliberais (que priorizam a economia de mercado). Neste caso, trata-se
de uma discussão mais aberta, em que o eleitorado poderá debater e
escolher a proposta de governo em campos ideológicos distintos. Ainda
aqui, uma outra questão importante deve ser levantada: a interferência,
neste campo ideológico, dos meios de comunicação de massa. Como a
mídia está concentrada nas mãos dos empresários (principalmente os
veículos de grande circulação ou audiência), os pontos de vista destes
empresários são veiculados por suas empresas de comunicação, seja
em editoriais, seja como notícia, podendo influenciar o eleitorado de
forma decisiva em relação a determinada concepção política. Assim,
voltamos ao início deste capítulo, quando falávamos do poder dos meios
de comunicação de massa. Mas esse é um assunto que tem mais que
ver com a construção da cidadania do que com as bases teóricas
relacionadas à mídia.
Texto complementar
O DISCURSO AUTORITÁRIO
Essa é a formação discursiva por excelência persuasiva.
Conquanto no discurso polêmico também haja persuasão, é aqui que se
instalam todas as condições para o exercício de dominação pela palavra.
Aquilo que se convencionou chamar de processo de comunicação (eu-tueu)
praticamente desaparece, visto que o tu se transforma em mero
receptor, sem qualquer possibilidade de interferir e modificar aquilo que
está sendo dito. É um discurso exclusivista, que não permite mediações
ou ponderações. O signo se fecha e irrompe a voz da “autoridade” sobre
o assunto, aquele que irá ditar verdades como num ritual entre a glória e
a catequese. O discurso autoritário lembra um circunlóquio: como se
alguém falasse para um auditório composto por ele mesmo. É na forma
discursiva que o poder [pg. 287]
mais escancara suas formas de dominação. Enquanto o discurso lúdico e o polêmico tendem a um maior ou menor grau de polissemia, o autoritário fixa-se num jogo parafrásico, ou seja, repete uma fala já sacramentada pela instituição: o mundo do diálogo perdeu a guerra para o mundo do monólogo.
A sociedade moderna está fortemente impregnada desta marca
autoritária do discurso. A persuasão ganhou a força de mito. Afinal, a
propaganda é ou não é a alma do negócio?
O discurso autoritário é encontrável, de forma mais ou menos
mascarada, na família: o pai que manda, sob a máscara do conselho; na
igreja: o padre que ameaça sob a guarda de Deus; no quartel: o grito que
visa a preservar a ordem e a hierarquia; na comunicação de massa: o
chamado publicitário que tem por objetivo racionalizar o consumo; há,
ainda, longos etecéteras a serem percorridos.
Adilson Citelli. Linguagem e persuasão. São Paulo, Ática, 1985.
Questões
1. Como os meios de comunicação de massa trabalham a subjetividade?
2. Do ponto de vista psicológico, por que a persuasão é um fenômeno
importante para a propaganda?
3. Discuta a questão do “retorno do recalcado” e do “acordo social”
produzidos pela cultura diante do apelo publicitário.
4. Como a linguagem cinematográfica pode ser agente de manipulação?
5. O que é propaganda ideológica?


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