terça-feira, 25 de novembro de 2008

capitulo11

CAPÍTULO 11

A multideterminação do humano:

uma visão em Psicologia

Eu sou eu e a minha circunstância”

Ortega Y Gasset

OS MITOS SOBRE O HOMEM

“Pau que nasce torto, não tem jeito, morre torto!”

Eis aqui um provérbio popular que expressa por inteiro o que

pretendemos questionar e discutir neste capítulo.

E não é só na crença popular que está presente a idéia de que o

ser humano nasce já dotado das qualidades que, no decorrer de sua

vida, irão ou não se manifestar. Na Filosofia encontraremos, em diversas

correntes, idéias semelhantes a esta.

Bleger, em seu livro Psicologia da conduta, sistematiza pelo menos

três mitos filosóficos, que influenciaram as ciências humanas em geral

e a Psicologia em particular, e que apresentam a idéia de que o homem

nasce pronto.

O mito do homem natural: concebe o homem como possuidor de uma

essência original que o caracteriza como bom, possuindo qualidades

que, por influência da organização social, se manifestariam, perderiam

ou modificariam, isto é, o homem nasce bom, mas a sociedade o

corrompe.

O mito do homem isolado: supõe o homem como, originária e

primitivamente, um ser isolado, não-social, que desenvolve

gradualmente a necessidade de relacionar-se com os outros indivíduos.

Alguns teóricos consideram necessário, para esse relacionamento, um

instinto especial, que Le Bon, um dos pioneiros da Psicologia social,

denominou instinto gregário. Sem esse instinto, o homem não

conseguiria relacionar-se com seus semelhantes, e seria impossível a

formação da sociedade.

O mito do homem abstrato: nessa concepção, o homem surge como

um ser cujas características independem das situações de vida. O ser

está isolado das situações históricas e presentes em [pg. 167]

que transcorre sua vida. O homem é estudado como o “homem em geral”,e

seus atributos ou propriedades passam a ser apresentados como

universais, independentes do momento histórico e tipo de sociedade

em que se insere e das relações que vive. Neste caso, uma pessoa que

viveu na época do Brasil Colônia não diferiria de uma pessoa do Brasil

atual, como se o desenvolvimento econômico e tecnológico não

interferisse na formação do indivíduo.

Sob o nosso ponto de vista, o homem não pode ser concebido

como ser natural, porque ele é um produto histórico, nem pode ser

estudado como ser isolado, porque ele se torna humano em função de

ser social, nem ser concebido como ser abstrato, porque o homem é o

conjunto de suas relações sociais. E é disto que iremos tratar neste

capítulo.

QUEM É O HOMEM?

Essa pergunta tem instigado poetas, filósofos, cientistas e homens

de todos os tempos, e mais uma vez nos deparamos com ela.

O poeta Carlos Drummond de Andrade, também preocupado com

o homem, pergunta em sua poesia:

Mas que coisa é homem,

que há sob o nome:

uma geografia?

um ser metafísico?

uma fábula sem

signo que a desmonte?

Como pode o homem

sentir-se a si mesmo,

quando o mundo some?

Como vai o homem

junto de outro homem,

sem perder o nome?

E não perde o nome

e o sal que ele come

nada lhe acrescenta

nem lhe subtrai

da doação do pai?

Como se faz um homem?

Apenas deitar,

copular, à espera?

de que do abdômen

brote a flor do homem?

Como se fazer

a si mesmo, antes

de fazer o homem?

Fabricar o pai

e o pai e outro pai

e um pai mais remoto

que o primeiro homem?

(...)1 [pg. 168]

Então, quem é o homem?

Várias respostas podem ser dadas a esta pergunta, expressando

diferentes pontos de vista ou diferentes visões de homem.

Nós escolhemos uma delas para apresentar aqui, e que é, na

verdade, a concepção de homem que fundamenta este livro:

O HOMEM É UM SER SÓCIO-HISTÓRICO

Mas, para que essa concepção fique mais clara, é necessário

desenvolvê-la melhor.

A primeira coisa que podemos dizer sobre o homem é que ele

pertence a uma espécie animal — Homo sapiens. Todos nós

dependemos dos genes que recebemos de nossos ancestrais para

formar nosso corpo, obedecendo às características de nossa espécie.

1 Carlos Drummond de Andrade. Especulações em torno da palavra homem. In: Obra completa. Rio de

Janeiro, José Aguilar, 1967. v. único. p. 302.

A evolução do

homem

No entanto, a Biologia já nos ensinou que os genes se manifestam

sob determinadas condições ambientais (físicas e sociais). Experiências

demonstram que peixes com determinado gene para cor de olho, quando

nascidos em um meio experimental distinto de seu meio natural,

apresentam olhos de outra cor. É por isso que se diz que todos os traços,

físicos ou mentais, normais ou não, são ao mesmo tempo genéticos e

ambientais.

Temos, portanto, um conjunto de traços herdados que, em contato

com um ambiente determinado, têm como resultado um ser específico,

individual e particular.

O que a natureza (o biológico) dá ao homem quando ele nasce

não basta, porém, para garantir sua vida em sociedade. [pg. 169]

Ele precisa adquirir várias aptidões, aprender

as formas de satisfazer as necessidades,

apropriar-se, enfim, do que a sociedade

humana criou no decurso de seu

desenvolvimento histórico.

Se você pensar nas coisas que sabe

fazer — escovar os dentes, comer com

talheres, beber água no copo, jogar futebol

e video game, escrever, ler este texto,

discuti-lo —, compreenderá que nossas

aptidões, nosso saber-fazer, não são

transmitidos por hereditariedade biológica,

mas adquiridos no decorrer da vida, por

um processo de apropriação da cultura

criado pelas gerações precedentes.

O HOMEM APRENDE A SER HOMEM

Não queremos dizer com isso que o homem esteja subtraído

do campo de ação das leis biológicas, mas que as modificações

biológicas hereditárias não determinam o desenvolvimento sócio-

A criança aprende e reproduz o curso

do desenvolvimento histórico da

humanidade.

histórico do homem e da humanidade: dão-lhe sustentação. As

condições biológicas permitem ao homem apropriar-se da cultura e

formar as capacidades e funções psíquicas.

A única aptidão inata no homem é a aptidão para a formação de

outras aptidões.

Essas aptidões se formarão a partir do contato com o mundo dos

objetos e com fenômenos da realidade objetiva, resultado da experiência

sócio-histórica da humanidade. E o mundo da ciência, da arte, dos

instrumentos, da tecnologia, dos conceitos e idéias. Para se apropriar

desse mundo, o homem desenvolve atividades que reproduzem os

traços essenciais da atividade acumulada e cristalizada nesses produtos

da cultura. São exemplos esclarecedores a aprendizagem do manuseio

de instrumentos e a da linguagem.

Os instrumentos humanos levam em si os traços característicos da

criação humana. Estão neles fixadas as operações de trabalho [pg. 170]

historicamente elaboradas. Pense numa enxada ou em um lápis. A mão

humana, que produziu esses objetos, subordina-se a eles, reorganizando

os movimentos naturais do homem e formando capacidades motoras

novas, capacidades que ficaram incorporadas nesses instrumentos.

Também o domínio da linguagem não é outra coisa senão o

processo de apropriação das significações e das operações fonéticas

fixadas na língua.

Assim, a assimilação pelo homem de sua cultura é um processo de

reprodução no indivíduo das propriedades e aptidões historicamente

formadas pela espécie humana. A criança, colocada diante do mundo

dos objetos humanos, deve agir adequadamente nesse mundo para se

apropriar da cultura, isto é, deve aprender a utilizar os objetos. Torna-se,

então, condição fundamental para que isso ocorra, que as relações do

indivíduo com o mundo dos objetos sejam mediadas pelas relações com

os outros indivíduos. A criança é introduzida no mundo da cultura por

outros indivíduos, que a guiam nesse mundo.

H. Piéron resume esse pensamento em uma frase bastante

interessante:

“A criança, no momento do nascimento, não passa de um candidato à

humanidade, mas não a pode alcançar no isolamento: deve aprender a ser um

homem na relação com os outros homens”2.

Duas imagens são interessantes aqui: ainda que coloquemos os

objetos da cultura humana na gaiola de um animal, isso não torna

possível a manifestação das propriedades específicas que estes objetos

têm para o homem. O animal não se apropria desses objetos e das

aptidões cristalizadas neles. Pode manuseá-los, mas eles não passarão

de elementos do meio natural. O homem, ao contrário, aprenderá com os

outros indivíduos a utilizá-los, extraindo do objeto aptidões motoras.

Outra imagem é a de uma catástrofe no planeta que eliminasse

todos os adultos e preservasse as crianças pequenas. A história seria

interrompida, como afirma Leontiev.

“Os tesouros da cultura continuariam a existir fisicamente, mas não existiria

ninguém capaz de revelar às novas gerações o seu uso. As máquinas deixariam

de funcionar, os livros ficariam sem leitores, as obras de arte perderiam a sua

função estética. A história da humanidade teria de recomeçar”3. [pg. 171]

Se retomarmos agora a formação biológica de cada indivíduo, com

cargas genéticas diferentes, poderemos postular aqui que as disposições

inatas que individualizam cada homem, deixando marcas no seu

desenvolvimento, não interferem no conteúdo ou na qualidade das

possibilidades de desenvolvimento, mas apenas em alguns traços

particulares da sua atividade. Assim, a partir do aprendizado ou da

apropriação de uma língua tonal, os indivíduos, independentemente de

suas cargas hereditárias, formarão o ouvido tonal (capaz de discernir a

altura de um complexo sonoro e distinguir as relações tonais). No

entanto, nessa população, alguém poderá ter herdado de seus pais

2 Apud A. Leontiev. O desenvolvimento do psiquismo. p. 238.

3 A. Leontiev. Op. cit. p. 272.

ouvido absoluto, o que lhe dará uma acuidade auditiva diferenciada,

possibilitando-lhe tornar-se um músico brilhante.

Essas diferenças entre os indivíduos existem, mas não são elas

que justificam as grandes diferenças que temos em nossa sociedade.

Pois, repetindo, essas diferenças biológicas geram apenas alguns traços

particulares na atividade dos indivíduos. Ou seja, todos aprendem a

fazer, só que colorem seu fazer com alguns traços particulares,

singulares, individuais. As nossas diferenças sociais são muito maiores

— temos crianças que sabem fazer e outras que não aprenderam e,

portanto, não desenvolveram certas aptidões. Essas diferenças estão

fundadas no acesso à cultura, que em nossa sociedade se dá de forma

desigual. Existem crianças que não têm brinquedos sofisticados, e até

aquelas que não têm os mais comuns; crianças que não manuseiam

talheres ou lápis; crianças que não andam de bicicleta, ou que nunca

viajaram. Temos até muitos adultos que não aprenderam a ler e escrever

e, portanto, nunca leram um livro; que nunca saíram do local onde

nasceram e não sabem que o homem já vai à Lua; nunca viram um

avião, nem imaginam o que seja um computador. Esses são alguns

exemplos. Não precisamos nos alongar, porque você, com certeza, já

percebeu essas diferenças. Ora, se desenvolvemos nossa humanidade a

partir da apropriação das realizações do progresso histórico, é claro que,

numa sociedade onde essa igualdade não ocorre, fica excluída a

possibilidade de igualdade entre os indivíduos.

“É por isso que a questão das perspectivas de desenvolvimento psíquico do

homem e da humanidade põe antes de mais nada o problema de uma

organização equitativa e sensata da vida da sociedade humana — de uma

organização que dê a cada um a possibilidade prática de se apropriar das

realizações do progresso histórico e participar enquanto criador no crescimento

destas realizações4“,

podendo cada um desenvolver seu potencial para que se

expressem suas particularidades. [pg. 172]

4 A. Leontiev. Op. cit. p. 257.

O QUE CARACTERIZA O HUMANO?

Quando nos colocamos essa questão, estamos querendo explicitar

as propriedades ou características que fazem do animal homem um ser

humano. O que nos distingue dos outros seres? Quais são nossas

particularidades enquanto seres humanos?

O HOMEM TRABALHA E UTILIZA INSTRUMENTOS

Inicialmente, salientamos como característica humana o trabalho e

o uso de instrumentos. Alguns animais, talvez a maioria deles, executam

atividades que se assemelham ao trabalho humano: a aranha que tece a

teia, a abelha que fabrica a colméia e as formigas que incessantemente

carregam folhas e restos de animais para sua “cidadela”. E poderíamos

dizer que as operações desses animais se assemelham às de

trabalhadores humanos — tecelões, arquitetos e operários. Mas o mais

inábil trabalhador humano difere do mais “habilidoso” animal, pois, antes

de iniciar seu trabalho, já o planejou em sua cabeça. No término do

processo de trabalho, o homem obtém como resultado algo que já existia

em sua mente. O trabalho humano está subordinado à vontade e ao

pensamento conceitual.

O uso de instrumentos também não é exatamente uma novidade

As relações sociais e as

atividades do homem no

mundo são as

responsáveis pela sua

configuração como ser.

no mundo animal. O castor, o

macaco, algumas espécies de

aves também fazem uso de

instrumentos. Mas esse uso

está marcado pelo fato de o

animal não ter consciência

disso. Se um macaco [pg. 173]

vê à sua frente um pedaço de

pau, poderá com ele tentar

apanhar uma fruta em local

pouco acessível, mas, se não

há nenhum instrumento à vista,

ele fica sem a fruta. O macaco não tem condições de raciocinar: “Poxa, e

aquele pauzinho que eu usei ontem, onde será que eu deixei?”.

O macaco tem a imagem do instrumento, mas não tem o conceito

de instrumento. Ele aprende a utilizá-lo, mas não pode dizer ou pensar

para que serve.

Uma breve história de um experimento poderá ajudar a

entendermos esta afirmação de que o macaco aprende mas não

conceitua.

Numa oportunidade, exatamente para testar este ponto, alguns psicólogos

treinaram um macaco de laboratório para apagar fogo — um macaco bombeiro.

Primeiro, sabendo que o macaco gostava muito de maçã, eles o treinaram para

apanhar uma maçã em uma plataforma um pouco distante de sua gaiola. Sempre

que tocava um sinal, o macaco corria em direção à maçã. O próximo passo,

sabendo do verdadeiro pavor que os macacos têm do fogo, foi colocar em volta

da maçã um pequeno círculo de fogo. Naturalmente, o macaco desistiu da maçã.

Em seguida, por meio de condicionamento, ensinaram o pequeno animal a usar

um balde com água para apagar o fogo. Depois de bem treinado, veio o passo

final. Colocaram a plataforma com a maçã e o círculo de fogo no meio de um

tanque com água com altura suficiente para o macaco atravessá-lo. Resultado: o

macaco foi até o lugar onde estava a maçã, viu o fogo, saiu do tanque e foi

Apesar de manipular a máquina fotográfica à

semelhança do homem, o macaco não tem consciência

de sua utilidade.

apanhar o balde com água para apagá-lo.

Veja só, o macaco aprendeu a usar o conteúdo do balde para

apagar o fogo, mas não foi capaz de conceitualizá-lo, já que não

percebeu que o conteúdo do balde era o mesmo do tanque. Entretanto,

se estivesse com sede, ele beberia indistintamente tanto o conteúdo do

tanque como o do balde.

Então, para que o instrumento seja considerado um instrumento de

trabalho, é necessário que a sua representação na mente [pg. 174]

seja conceitualizada e, desta maneira, transforme-se em um primeiro dado de consciência.

O HOMEM CRIA E UTILIZA A LINGUAGEM

Para o psicólogo Alexis Leontiev, a linguagem é o elemento

concreto que permite ao homem ter consciência das coisas. Mas, para

chegar até a linguagem, houve alguns antecedentes. Se raciocinarmos

em termos evolutivos (teoria evolucionista de Darwin), o homem teve sua

origem a partir de um antropóide.

As condições para que o homem chegasse até a linguagem foram

as seguintes:

1. esse antropóide aprendeu a andar sem usar as mãos, ficou ereto e

com as mãos livres;

2. esse antropóide vivia em grupo (como ocorreu com muitas espécies

de macacos);

3. esse grupo de antropóides tinha dedo opositor, o que permitia a

utilização de instrumentos (por exemplo, um pedaço de pau para

apanhar alimentos);

4. o sistema nervoso dispunha de suporte mínimo para o

desenvolvimento da linguagem.

No decorrer da evolução do homem atual (são cerca de 5 milhões

de anos desde o aparecimento do australopithecus aferensis, primeiro

antropóide ou macaco com características humanóides, até o homo

neanderthalensi e o homo sapiens primitivos — nossos antepassados

diretos, que provavelmente surgiram há 30 mil anos), aprendemos a

transformar o instrumento em instrumento de trabalho (instrumento com

objetivo determinado), a registrá-lo simbolicamente em nosso sistema

nervoso central (aparecimento da consciência) e a denominá-lo

(aparecimento da linguagem).

Este desenvolvimento foi, evidentemente, muito lento (5 milhões de

anos representam muito, mas muito tempo mesmo...). Cada avanço

representou uma enorme conquista para o desenvolvimento da

humanidade. A descoberta de que a vocalização (transformação de um

grunhido em som com significado) poderia ser usada na comunicação

equivale, nos tempos atuais, à descoberta dos chips eletrônicos.

O fato é que o instrumento de trabalho induz o aparecimento da

consciência (isso ocorre de forma concomitante) e cria as [pg. 175]

condições para o surgimento da linguagem — três condições que

impulsionam o desenvolvimento humano.

O HOMEM COMPREENDE O MUNDO AO SEU REDOR

Todos nós já observamos o comportamento de uma pequena

aranha na sua teia. A teia é tecida para garantir sua alimentação e,

quando um desavisado inseto bate nessa teia, fica preso a ela. Pronto, o

almoço está garantido! O inseto, que também luta pela sobrevivência,

debate-se tentando escapar da armadilha. Esta vibração é uma espécie

de aviso para a aranha, que dispara em direção a ela e envolve o inseto,

aplicando-lhe seu veneno. Se nós pegarmos um diapasão e vibrarmos

esse instrumento junto à teia da aranha, estaremos simulando uma

situação parecida com a vibração causada pelo inseto. O resultado é que

a aranha irá ao encontro do ponto de vibração e envolverá com seu fio

aquele ponto vibrante sem nenhum inseto. Esta simples experiência

demonstra que o comportamento da aranha é predeterminado,

geneticamente marcado.

O homem, diferentemente, compreende o que ocorre na realidade

ambiente. Quando percebemos algo, refletimos esse real na forma de

imagem em nosso pensamento. Muitos animais apresentam essa

possibilidade. Mas nós, homens, compreendemos — relacionando e

conceituando — o que está a nossa volta.

A consciência reflete o mundo objetivo. É a construção, no nível

subjetivo, da realidade objetiva. Sua formação se deve ao trabalho e às

relações sociais surgidas entre os homens no decorrer da produção dos

meios necessários para a vida.

Este fator fundamental, a consciência, separa o homem dos

outros animais e é o que lhe dá condições de avaliar o mundo que o

cerca e a si mesmo. Só o homem é capaz de fazer uma poesia

perguntando uma coisa muito difícil de responder: Quem sou eu? De

onde vim?

Sem dúvida, a compreensão ou o saber que o homem desenvolve

sobre a realidade ambiente não se encontra todo como saber consciente

— conhecimento. O homem sabe seu mundo de várias formas: através

das emoções e sentimentos e através do inconsciente. Portanto, essas

formas também se constituem como características do humano.

A consciência (incluída a consciência de si), sentimentos e

emoções, o inconsciente podem ser reunidos no que chamamos, em

Psicologia, subjetividade ou mundo interno. [pg. 176]

AFINAL, QUEM É O HOMEM?

Agora temos condições de retomar o provérbio “pau que nasce

torto, não tem jeito, morre torto”, que introduziu nosso capítulo, e

questioná-lo. Esse provérbio abandona por completo a noção de ser

histórico, social e concreto, quando liga definitivamente o ser que nasce

ao ser que morre, ou seja, supõe que não há transformação desse

homem. As experiências concretas de vida em determinada época,

cultura, classe social, grupo étnico, grupo religioso etc. são, na

concepção do provérbio, absolutamente inofensivas, inúteis, sem

influência alguma sobre o ser que nasce. O ser que morre não é pensado

como resultante de toda uma vida real, de todo um conjunto de

condições materiais experienciadas, que determinam o desenvolvimento

do ser que nasceu.

As propriedades que fazem do homem um ser particular, que

fazem deste animal um ser humano, são um suporte biológico

específico, o trabalho e os instrumentos, a linguagem, as relações

sociais e uma subjetividade caracterizada pela consciência e

identidade, pelos sentimentos e emoções e pelo inconsciente. Com isso,

queremos dizer que o humano é determinado por todos esses

elementos. Ele é multideterminado.

Questões

1. Explique os mitos do homem natural, do homem isolado e do homem

abstrato.

2. Explique a concepção apresentada do homem como ser sóciohistórico.

3. Por que H. Piéron diz que a criança ao nascer não passa de um

candidato à humanidade?

4. O que caracteriza o humano? Fale um pouco de cada aspecto.

Atividades em grupo

1. Discuta com seu grupo respondendo à pergunta: Quem é o homem?

Utilizem a forma de expressão que desejarem. Apresentem para a

classe o resultado da discussão.

2. Discutam a afirmação: O homem aprende a ser homem.

3. “Pau que nasce torto, não tem jeito, morre torto.” Discutam essa frase

a partir da concepção da multideterminação do homem, utilizando o

filme Trocando as bolas como base para um debate entre grupos

que defendam posições contrárias. [pg. 177]

Bibliografia indicada

Sobre este tema, não há uma bibliografia introdutória para o aluno.

Como leitura que aprofunda aspectos abordados neste texto,

indicamos: A ideologia alemã, de K. Marx e F. Engels (Lisboa,

Presença; São Paulo, Martins Fontes, 1980). Deste livro, destacamos

para leitura o capítulo 1 do 1a volume.

Psicologia da conduta, de J. Bleger (Porto Alegre, Artes Médicas,

1987), e O desenvolvimento do psiquismo, de A. Leontiev (Lisboa,

Livros Horizonte, 1978), são livros que abordam o desenvolvimento do

psiquismo considerando diferentes ordens de determinações.

O aspecto abordado no final do texto da humanização do homem

poderá ser aprofundado com a leitura do texto “Humanização do macaco

pelo trabalho”, do livro A dialética da Natureza, de F. Engels (Rio de

Janeiro, Paz e Terra, 1976), e do livro Pensamento e linguagem, de L.

S. Vigotski (Lisboa, Antídoto, 1975).

Filmes indicados

A guerra do fogo. Direção Jean-Jacques Annaud

(França/Canadá, 1981) – Um filme épico, quase antropológico, sobre o

homem primitivo e a descoberta do fogo.

Pode propiciar um bom debate sobre o processo de humanização.

Trocando as bolas. Direção John Landis (EUA, 1983) – Uma

comédia em que dois irmãos milionários apostam que podem transformar

um corretor de sua empresa em um vagabundo e, ao mesmo tempo,

colocar um mendigo vigarista em seu lugar. [pg. 178]

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